E lá estava ela,
tórrida, pálida, flácida... Os anos não a fizeram bem, acertou a alma e o
corpo. Seu gênio é o mesmo. Hoje, encarnou em sua cadeira. Não anda, desanda.
Ana sua filha, um amor... Cuida da velha com paciência. Não reclama de nada
coitada, mas também, a reclamação da velha já basta. De manhã a vejo tomando
sol, para ela é um ritual. Sempre foi vaidosa coitada, quando mais nova era “arretada”.
Ela é vítima do tempo como todos nós. Eu
particularmente não ligo, sou natural. Quando adolescente tinha um corpo
fenomenal, fui atleta corredor. Aproveitei bem a vida, sempre fui trabalhador.
Ela com sua vaidade, não se preocupava com nada, nem com a dignidade. Sempre
amante do amor e prazer. Conheceu várias pessoas no sentido raso de dizer. Me
pergunto quem de nós dois a vida mais aproveitou. Sou um eterno apaixonado, mas
na vida encontrei muito desamor. Fui desamado por ela, que nem ser quer tentou.
Hoje somos dois velhos, ela com Alzheimer e paraplégica e eu aqui sozinho como
os outros necessitado de atenção.
Maycon Martins
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