E lá estava eu sentado no banco da praça Riachuelo, esperando dar a hora para ir até um determinado estabelecimento. Aproveitei a oportunidade para observar os transeuntes a minha volta, atividade costumaz. Era mais ou menos sete e meia da manhã, os ônibus lotados trazendo os trabalhadores, os mesmos apressados, provavelmente atrasados para o trabalho. Tinha um tanto de outras pessoas sentadas nos bancos da praça. Aproveitei para reparar em alguns monumentos dispostos na praça, celebridades políticas, símbolos militares e tals. Uma praça bonita e descuidada pela administração da cidade. Mas o que realmente despertou minha atenção, foi um dos “moradores/passageiros” de rua realizando suas necessidades fisiológicas (cagando) em meio a um canteiro florido. Sei que não é coisa de se olhar, desviava o olhar, mas não resistia em olhar novamente aquela figura agachada. Me espantei, confesso! Julguei ser um “morador/passageiro” comum de rua, me enganei! Passado um tempo, vi esse mesmo homem, só que ele estava diferente, me espantei novamente! Estava de social, e lustrava seu belo sapato de couro. Sua bolsa preta estava sobre o banco, percebi que ela brilhava de limpa. Ele ajeitava sua calça, penteava seu cabelo refletido em um pequeno espelho. E eu a observá-lo. Fiquei interpelado de tal maneira, vieram-me mil reflexões, a começar pelo discurso corrente da desigualdade social, das oportunidades que esse homem não teve. Depois um sentimento de empatia surgiu, e pensei como seria se fosse eu nessa situação. Tive lembranças de situações difíceis que passei em minha vida, mas nada que se compare, pois, sempre tive o apoio de família e amigos. Me emocionei, “espantei-me comigo”. Enquanto ficava refletindo e até mesmo exercitando empatia, não percebi que o homem fora embora e não tive a chance de abordá-lo e ajudá-lo de alguma forma. Talvez o nosso problema seja esse, pensamos, refletimos e discutimos de mais. Isso me causou um certa angústia, confesso! Então, voltei a pensar mais um pouco naquela figura que me abalara emocionalmente naquela manhã. Acredito que ele era casado, pois, tinha um aliança. O que me faz pensar que ele estava ali de passagem, procurando emprego para ajudar sua família que provavelmente não é daqui. E assim eu seguia para meu compromisso, quando entrei na Getúlio Vargas logo no começo, quem eu vejo? Novamente me espantei. Ele estava ajudando a descarregar um caminhão de mercadorias de uma “horti-fruti”, lembrando que ele estava todo de social. Aquilo me impressionou. Por quê?
Juiz de Fora possui vários moradores de rua, estamos acostumados com a presença deles nas praças, debaixo de pontes, viadutos e no albergue. Esse moradores não possuem perspectivas de sair das ruas, muitos são viciados e outros preferem a rua do que um lar. Não querem trabalhar, preferem depender de esmola e sobras de comida que as pessoas dão. Quando vi esse homem defecando, ele representava só mais um morador de rua, mas ao se arrumar como alguém que vai procurar emprego eu percebi que ele era um homem trabalhador e com perspectivas. Ele é um batalhador como qualquer um de nós. Estava ali na praça, pois, não tinha para onde ir e nem onde banhar. É isso que me impressionou. O destino me deu outra chance de poder fazer algo por ele, fiz pouco, mas pude ajudar no pouco. Além de conversar e entender por que ele estava na rua. O por que é outra história. Homens como ele estão a procura de oportunidades, e quando tiver tenho certeza que irá agarrar. Vamos exercer a empatia, vamos nos interpelar e tentar fazer algo sobre. Me sinto mais tranqüilo agora para tecer um reflexão sobre as oportunidades, sobre a injustiça, sobre a política para essas pessoas, para mim.
Por: Maycon Martins