Não era um dia
diferente, tomei o ônibus no mesmo lugar de sempre, redundante ou não é um
fato. Era por volta das quatorze e trinta. Não era horário de pico, porém,
como são poucos os itinerários que percorrem a linha, acaba que o fluxo é
intenso de passageiros. Eu observei que
tinha uma mulher carregando um menino em seu colo, a criança parecia dopada,
mas imaginei que estivesse apenas dormindo. A mulher estava com muitas sacolas
ao seu redor, totalmente espremida no canto do ponto. Não sei por que, mas
aquela cena me interpelou de alguma forma. Quando meu ônibus chegou, vi que ela
se preparou para entrar, logo tomaria o mesmo ônibus que eu. Espontaneamente a
ofereci ajuda para entrar com as sacolas, ela gentilmente agradeceu. Ela sentou
no banco dianteiro, visto que são preferenciais para pessoas com criança de
colo. A entreguei as sacolas e novamente me agradeceu, e deixei- a com aparentemente
seu filho e seu olhar tristonho. Atravessei a roleta e fui sentar em meu lugar,
e seguir ouvindo música como sempre faço. Em certo momento o ônibus estava cheio
e não se podia ver a parte da frente. Só escutei uma movimentação e pessoas se questionando o que aconteceu. Percebi
que o ônibus tinha acelerado, alguma coisa estava acontecendo. No ponto
seguinte desceu muitas pessoas, o que possibilitou enxergar melhor o que
acontecera e estava acontecendo. Percebi que a mesma mulher que tinha ajudado
estava em prantos e aflita, não entendi muito bem o que estava acontecendo. Os comentários
seguiam e ninguém sabia ao certo o que estava passando. As pessoas que
estava na parte da frente do itinerário fixaram o olhar para a mulher, e
confesso fiquei agoniado por não saber o que houve. O ser humano é curioso
por natureza, e só é curioso por que tem uma necessidade imanente de buscar o
conhecimento e isso não pode negado e reprimido a/em ninguém. Dessa forma não
podemos ser culpados, mesmo que a curiosidade seja para coisas fúteis ou ruins.
Não saciar a curiosidade pode causar vários problemas somáticos inclusive. E eu
estava naquele momento bem aflito. Depois
de um tempo tive mais visibilidade e pude ver que aquela mulher estava dando
leves tapas no rosto do garoto e pedindo para que ele acordasse. Ela repetia o
nome Grabiel, e dizia meu filho, o que comprovou que era seu filho. O menino
estava como se tivesse morto, pálido e mole, e seu braços jogados no banco onde
sua mãe estava. Foi realmente uma cena chocante, e só quem possui sensibilidade
teria se compadecido. O motorista estava mais apreensivo que todos, acelerava
cada vez mais o ônibus, foi ai que pude entender que no percurso tinha uma UPA.
A mulher estava em prantos, acreditando que seu filho estava morto. Para alivio
de todos, o ônibus chegou na UPA, o motorista mais que de pressa, tomou a
criança em seus braços e saiu correndo levando a criança para emergência, o
desespero do motorista visivelmente retratava a dor de um pai. Ficamos no
ônibus parado por um bom tempo e ninguém reclamou, pelo contrário houve um
compadecimento mutuo. Quando o motorista retorno pediu desculpas a todos e
explicou que a criança estava bem, apenas com baixa de pressão, e complementou
que a mãe da criança vinha de uma cidade vizinha para trazer seu filho para uma
consulta, pois, tinha semanas que ele estava doente. Todos ficaram aliviados,
pelo bem estar da criança e seguimos viagem. O motorista disse que tinha filho,
e sabia o que a mãe do garoto estava passando. Somente uma palavra para
descrever o que aconteceu: EMPATIA.
Por: Maycon Martins