quarta-feira, 4 de julho de 2018

Coisas de meu itinerário III


Não era um dia diferente, tomei o ônibus no mesmo lugar de sempre, redundante ou não é um fato. Era por volta das quatorze e trinta. Não era horário de pico, porém, como são poucos os itinerários que percorrem a linha, acaba que o fluxo é intenso de passageiros.  Eu observei que tinha uma mulher carregando um menino em seu colo, a criança parecia dopada, mas imaginei que estivesse apenas dormindo. A mulher estava com muitas sacolas ao seu redor, totalmente espremida no canto do ponto. Não sei por que, mas aquela cena me interpelou de alguma forma. Quando meu ônibus chegou, vi que ela se preparou para entrar, logo tomaria o mesmo ônibus que eu. Espontaneamente a ofereci ajuda para entrar com as sacolas, ela gentilmente agradeceu. Ela sentou no banco dianteiro, visto que são preferenciais para pessoas com criança de colo. A entreguei as sacolas e novamente me agradeceu, e deixei- a com aparentemente seu filho e seu olhar tristonho. Atravessei a roleta e fui sentar em meu lugar, e seguir ouvindo música como sempre faço. Em certo momento o ônibus estava cheio e não se podia ver a parte da frente. Só escutei uma movimentação e pessoas se questionando o que aconteceu. Percebi que o ônibus tinha acelerado, alguma coisa estava acontecendo. No ponto seguinte desceu muitas pessoas, o que possibilitou enxergar melhor o que acontecera e estava acontecendo. Percebi que a mesma mulher que tinha ajudado estava em prantos e aflita, não entendi muito bem o que estava acontecendo. Os comentários seguiam e ninguém sabia ao certo o que estava passando. As pessoas que estava na parte da frente do itinerário fixaram o olhar para a mulher, e confesso fiquei agoniado por não saber o que houve. O ser humano é curioso por natureza, e só é curioso por que tem uma necessidade imanente de buscar o conhecimento e isso não pode negado e reprimido a/em ninguém. Dessa forma não podemos ser culpados, mesmo que a curiosidade seja para coisas fúteis ou ruins. Não saciar a curiosidade pode causar vários problemas somáticos inclusive. E eu estava naquele momento bem aflito.  Depois de um tempo tive mais visibilidade e pude ver que aquela mulher estava dando leves tapas no rosto do garoto e pedindo para que ele acordasse. Ela repetia o nome Grabiel, e dizia meu filho, o que comprovou que era seu filho. O menino estava como se tivesse morto, pálido e mole, e seu braços jogados no banco onde sua mãe estava. Foi realmente uma cena chocante, e só quem possui sensibilidade teria se compadecido. O motorista estava mais apreensivo que todos, acelerava cada vez mais o ônibus, foi ai que pude entender que no percurso tinha uma UPA. A mulher estava em prantos, acreditando que seu filho estava morto. Para alivio de todos, o ônibus chegou na UPA, o motorista mais que de pressa, tomou a criança em seus braços e saiu correndo levando a criança para emergência, o desespero do motorista visivelmente retratava a dor de um pai. Ficamos no ônibus parado por um bom tempo e ninguém reclamou, pelo contrário houve um compadecimento mutuo. Quando o motorista retorno pediu desculpas a todos e explicou que a criança estava bem, apenas com baixa de pressão, e complementou que a mãe da criança vinha de uma cidade vizinha para trazer seu filho para uma consulta, pois, tinha semanas que ele estava doente. Todos ficaram aliviados, pelo bem estar da criança e seguimos viagem. O motorista disse que tinha filho, e sabia o que a mãe do garoto estava passando. Somente uma palavra para descrever o que aconteceu: EMPATIA.


Por: Maycon Martins

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