segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

O conto da Cueca Perdida


Era um sábado de manhã como outro qualquer, ou quase isso. O sol mal tinha aparecido, mas o professor Maycon já estava de pé, pronto para encarar um dia cheio. Afinal, dar aula no Módulo II era só para os fortes, e ele se orgulhava de ser um deles.

Depois de tomar um banho caprichado, vestiu-se com sua melhor disposição e decidiu aproveitar o embalo para levar a cueca do dia anterior até a máquina de lavar. “Nada de acumular roupas sujas”, pensou ele, todo disciplinado. Jogou a cueca no ombro, como quem carrega um troféu invisível, e seguiu para a lavanderia. Ou melhor, deveria ter seguido para a lavanderia.

Só que, entre organizar a casa e pegar a bolsa, ele passou direto. Na pressa de não perder o ônibus que parava convenientemente na porta de casa (com uma subida de escadas que só faltava ser escalada), esqueceu completamente do detalhe crucial: a cueca ainda estava no ombro.

Ao chegar ao ônibus, já com um leve suor na testa e um caderno de planos de aula debaixo do braço, Maycon se dirigiu até a roleta. Foi aí que o desastre aconteceu.

Plof! Algo caiu no chão. Não, não era o caderno, nem uma moeda do troco. Era a cueca. E, junto com ela, Maycon sentiu que sua dignidade também se espatifava ali mesmo, no corredor do ônibus.

A cobradora lançou-lhe um olhar que dizia tudo: surpresa, espanto e, talvez, um pouco de diversão. Tentando manter o resto de sua compostura, Maycon se abaixou, pegou a cueca e, num reflexo mais rápido que a luz, amassou-a na mão e jogou na bolsa.

— Passei debaixo do varal, deve ter agarrado no ombro — disse ele, sem nem acreditar na própria desculpa esfarrapada.

A cobradora levantou uma sobrancelha, mas não disse nada. Só um sorrisinho discreto entregava o quanto ela estava achando aquela cena engraçada.

Maycon não perdeu tempo. Foi direto para o fundo do ônibus, onde sentou-se, enfiando a cara na bolsa, como se quisesse desaparecer dali. Enquanto o ônibus chacoalhava pelas ruas, ele só conseguia pensar em uma coisa: “Espero que meus alunos nunca saibam disso!”

E assim, mais um dia comum na vida de um professor cheio de histórias para contar começava.

Por: Maycon Martins

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Visões de um crime: João Alberto Silveira Freitas

 A profissional do sexo (garota de programa) foi rechaçada ao prestar queixa sobre sexo não consensual (estupro). O homossexual foi rechaçado ao prestar queixa sobre roubo, espancamento e estupro durante um encontro intermediado por um aplicativo e foi rechaçado. Uma mãe negra, de um jovem negro, morador de periferia é ignorada ao prestar queixa de assassinato a sangue frio em uma batida policial. Um homem negro é espancado em um estabelecimento comercial, mas o ato é justificado por que ele tem um histórico criminal, e essa lista não tem fim. Para todas essas situações, os fins justificam os meios. Não mais! É errado matar, estuprar e ponto! Não existem circunstâncias, mesmo que tem te fazer acreditar que existe.

O caso do homem que foi assinado no Carrefour é mais um exemplo. Estão tentando justiçar a morte dele, com base no seu passado... será que o passado dele naquele momento foi o que levou a sua morte? A resposta você sabe que é não! E mesmo se fosse, não era motivo. O fato dele ser negro, tatuado e com “pinta de marginal”, pode ter sido fator determinante para isso ter ocorrido...

 

O debate hoje entre duas correntes antagônicas de pensamento, ideologia e politica... a Direita e a Esquerda deixa bem clara suas posições. A direita o crucifixa e a esquerda o humaniza. Qual sua opinião?


Att; Maycon Martins

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Consolação

 

Tão deprimente és tu!

Insiste em ver o céu escuro,

Quando está tão límpido e azul.

 

Outrora viste teu corpo nu.

És uma bela obra de arte,

Pena que para ti, isto não é verdade.

 

Ainda não sabe, mas está cru.

A vida lhe reserva muito altares,

Então não me venha com essas bobagens.

 

Tão deprimente és tu!

Pena que se sinta assim,

Se soubestes o valor que tens pra mim.

 

Já não tens manitu,

Desistiu bravamente, pobre inocente.

Também desisto tu.



Por: Maycon Martins

sábado, 23 de novembro de 2019

Resiliência

Todas as vezes que tentei consertar algo,
Esse algo, quebrou ainda mais!
Todas as vezes que tentei reerguer-me de algum abismo,
Esse abismo desmoronou!
Todas as vezes que tentei fugir de alguém que me interpelava,
Esse alguém mais do que depressa me alcançava!
Todas as vezes que tentei não me iludi,
Essa ilusão, era ilusória!

Dessa forma, cá estou então!
Estou acreditando que a culpa é minha!

Porém, não é minha culpa!
Não posso ser responsabilizado pelos eventos do acaso!
Minha parte eu fiz, e se algo deu errado... era para ser!

Todas as vezes que tento algo, tento afinco!
Não mais sofrerei pelo que deu errado,
Pelo contrário, me alegrarei por ter tentado!

Levantarei, reerguerei!

By: Maycon Martins

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Reflexo

A vejo refletida em meu espelho,
E me trata como trebelho,
E ela se mostra e demostra,
Me enforca e desfoca.

Sou rico em ilusão
Se penso sim... ela diz não,
Tento escapar, desolhar
Viro as costas, e lá está!

Não existe subjetividade,
Não sou eu que penso,
E isso e verdade.

Sou fantoche de escolhas,
Que escolhas por mim então!
Tenho sido austero,
E espero em mim, se não!

A vejo refletida em meu espelho,
Em meu espelho me vejo reflexo
No revérbero reflexo
Em minha vida, só solidão.


Por: Maycon Martins

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Acomodar-se

Vamos indo agora?
Mas não fomos outrora?
Que importa isso?
Não estamos sempre indo e vindo?

Sem rumo eu não vou! 
Mas nem sei onde estou!
Acho melhor ficar,
Pelo menos aqui, sou!

De que adianta ficar,
Se não sabes onde está? 
É melhor partir, 
Quem sabe lá é melhor que aqui?

Pra que arriscar, se não sei onde vai dar?
Já estou acomodando-me, não sei!
Aqui com certeza é melhor que lá! 

Por: Maycon Martins

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Nada

Nada é como é na verdade...  nada se justifica facilmente do nada. Nada, não pode ser nada, pois, foi algo em algum momento. O nada outrora remeteu o ócio,  oxalá deixe de existir no vazio! O nada entrou calado e levou-nos algo, e o que foi? A resposta é sempre nada! O nada é sempre o motivo/causa de algo, o que aconteceu? Nada! Nem Heidegger no seu calhamaço conseguiu apreendê-lo, quem dirá "yo" em meus trocadilhos! No final de tudo, o que restará para fazermos será sempre o supracitado! Qualquer interrogação ou qualquer destino nos remeterá a nada, pois sempre haverá perguntas e sempre haverá nada.


Por: Maycon Martins

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Coisas de meu itinerário III


Não era um dia diferente, tomei o ônibus no mesmo lugar de sempre, redundante ou não é um fato. Era por volta das quatorze e trinta. Não era horário de pico, porém, como são poucos os itinerários que percorrem a linha, acaba que o fluxo é intenso de passageiros.  Eu observei que tinha uma mulher carregando um menino em seu colo, a criança parecia dopada, mas imaginei que estivesse apenas dormindo. A mulher estava com muitas sacolas ao seu redor, totalmente espremida no canto do ponto. Não sei por que, mas aquela cena me interpelou de alguma forma. Quando meu ônibus chegou, vi que ela se preparou para entrar, logo tomaria o mesmo ônibus que eu. Espontaneamente a ofereci ajuda para entrar com as sacolas, ela gentilmente agradeceu. Ela sentou no banco dianteiro, visto que são preferenciais para pessoas com criança de colo. A entreguei as sacolas e novamente me agradeceu, e deixei- a com aparentemente seu filho e seu olhar tristonho. Atravessei a roleta e fui sentar em meu lugar, e seguir ouvindo música como sempre faço. Em certo momento o ônibus estava cheio e não se podia ver a parte da frente. Só escutei uma movimentação e pessoas se questionando o que aconteceu. Percebi que o ônibus tinha acelerado, alguma coisa estava acontecendo. No ponto seguinte desceu muitas pessoas, o que possibilitou enxergar melhor o que acontecera e estava acontecendo. Percebi que a mesma mulher que tinha ajudado estava em prantos e aflita, não entendi muito bem o que estava acontecendo. Os comentários seguiam e ninguém sabia ao certo o que estava passando. As pessoas que estava na parte da frente do itinerário fixaram o olhar para a mulher, e confesso fiquei agoniado por não saber o que houve. O ser humano é curioso por natureza, e só é curioso por que tem uma necessidade imanente de buscar o conhecimento e isso não pode negado e reprimido a/em ninguém. Dessa forma não podemos ser culpados, mesmo que a curiosidade seja para coisas fúteis ou ruins. Não saciar a curiosidade pode causar vários problemas somáticos inclusive. E eu estava naquele momento bem aflito.  Depois de um tempo tive mais visibilidade e pude ver que aquela mulher estava dando leves tapas no rosto do garoto e pedindo para que ele acordasse. Ela repetia o nome Grabiel, e dizia meu filho, o que comprovou que era seu filho. O menino estava como se tivesse morto, pálido e mole, e seu braços jogados no banco onde sua mãe estava. Foi realmente uma cena chocante, e só quem possui sensibilidade teria se compadecido. O motorista estava mais apreensivo que todos, acelerava cada vez mais o ônibus, foi ai que pude entender que no percurso tinha uma UPA. A mulher estava em prantos, acreditando que seu filho estava morto. Para alivio de todos, o ônibus chegou na UPA, o motorista mais que de pressa, tomou a criança em seus braços e saiu correndo levando a criança para emergência, o desespero do motorista visivelmente retratava a dor de um pai. Ficamos no ônibus parado por um bom tempo e ninguém reclamou, pelo contrário houve um compadecimento mutuo. Quando o motorista retorno pediu desculpas a todos e explicou que a criança estava bem, apenas com baixa de pressão, e complementou que a mãe da criança vinha de uma cidade vizinha para trazer seu filho para uma consulta, pois, tinha semanas que ele estava doente. Todos ficaram aliviados, pelo bem estar da criança e seguimos viagem. O motorista disse que tinha filho, e sabia o que a mãe do garoto estava passando. Somente uma palavra para descrever o que aconteceu: EMPATIA.


Por: Maycon Martins

sábado, 2 de junho de 2018

Apostasia


Não é raro sentir-me esvaído,
Esperei que os propósitos fossem me dado. Esperei, esperei e esperei. Mas acho que esperei de mais, demasiado demorei a despertar de um sonho dogmático. Nada me é dado, muito menos algum propósito. Conjecturo não ser responsável pelos meus atos, eles, creio que são a priori impostados. Estou seguindo o fluxo que doravante fora citado. No fundo creio que sou incapaz, e me deixo guiar. Cá restou, e não sei porquê haja! 


Por: Maycon Martins

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Céu

Faz tempo que fui e mesmo assim sinto constantemente a vontade de voltar. Não é da forma que acreditava ser. Me preparei todos os dias em vão, não se trata de conhecimento,  é um preparo que nao se tira nenhum proveito. E hoje vejo muitos seguindo o mesmo caminho,  ah... se regressar fosse opção, faria um bem tão grande aos meus. Aqui é tão enfadonho, não existe dia nem noite o tempo é ilusão.  Tentei marcar os instantes mas eles se misturam com a imensidão.  Que dia é hoje? E se eu disser que hoje é na verdade ontem! E ontem foi amanhã? É confuso, eu sei. Demorei mas, me acostumei.  Queria ter somente meu divã, minha smart tv e uma infinidade de filmes pra ver. O que faço?  Caminho, caminho e caminho querendo chegar no fim do que é isso aqui mesmo sendo cético quanto ao fim.  Sou o único Transeunte, já conspirei que aqui tenha momentos paralelos, espaços paralelos e onde sempre caminho tenha uma boa centenas de mins, afins, outrens. Se eu não estiver psicótico vi/senti ascenos destes supracitados. O espaço é predefinido, substancial, cedido alocado não sei ao certo a expressão.  Só sei que vejo até onde posso ver, não posso correr se não trombo em algo por ver. Aqui é um mundo limitado,  aos menos pra mim. Mas, acredito que se eu continuar indo, sempre terei para onde ir. 

Por: Maycon Martins