Hoje
aconteceu um fenômeno natural e tão estranho para mim. Choveu! Mas não era
qualquer chuva. Parecia que alguém lá no céu estava derramando gelo cá embaixo.
Sempre gostei de contemplar a chuva, ver os pingos caindo do alto. Sempre me
questionei se eles faziam uma curva ou desciam como uma reta. E hoje pela
primeira vez, vi a chuva em dois de seus estados. Fiquei tão feliz, queria ir
ao seu encontro. Fiquei com medo de um tapa gelado. As pedrinhas fazem um
estrago nos carros, quem dirá com minha moleira raspada. Fato é que, me encanta
este momento, algo místico visto de perto. A chuva é um dos grandes profetas,
anunciando a mensagem de Deus, que nunca deixa de olhar para o seus. Minha avó
sempre me impediu de ver a chuva, sempre me chamava para dentro de casa. “Não
fique do lado de fora menino, é perigoso”! Acho que a chuva era a face de Deus
para ela, só assim para entender o motivo de não me permitir contemplá-la.
Quando chovia, para mim era tristeza, não por causa da chuva e sim por causa do
medo da minha avó. Talvez seja decepção, a chuva a fazia lembrar de coisas que
ela queria ocultar. Parecia que o mundo ia arrasar, ela corria tapando os
espelhos e vidros com lençóis, dentro de casa não entrava um pingo de luz. Todo
mundo ia para o quarto, sentávamos na cama, um olhando para outro enquanto ela não
cessava de rezar. A casa estava infestada com o fedor dos ramos queimados da
sexta-feira Santa. Eu estava ainda cursando as series iniciais, mas já lia
muito bem. Lia o livrinho de Santa Barbara como ninguém. Minha avó dizia que a
Santa livrava a gente das impetuosas tempestades e trovões. Era tantos dias
assim, que o livrinho de Santa Barbara eu decorei. Às vezes, confesso, a chuva
me assustava, mas não era a chuva em si, era o que com ela vinha sem ao menos
pedir. Quando a chuva findava, saia para o terreiro e o cheiro de terra
molhada, o cheiro de chuva meu coração limpava. Parecia que minha vida estava mais
bela. Hoje quando chove vou para a janela, ainda gosto de ver a chuva. Ela me
lembra de como Deus é bom, a cada chuva que vem, são tantas mortes que se vão.
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