terça-feira, 21 de junho de 2016

Choveu

Hoje aconteceu um fenômeno natural e tão estranho para mim. Choveu! Mas não era qualquer chuva. Parecia que alguém lá no céu estava derramando gelo cá embaixo. Sempre gostei de contemplar a chuva, ver os pingos caindo do alto. Sempre me questionei se eles faziam uma curva ou desciam como uma reta. E hoje pela primeira vez, vi a chuva em dois de seus estados. Fiquei tão feliz, queria ir ao seu encontro. Fiquei com medo de um tapa gelado. As pedrinhas fazem um estrago nos carros, quem dirá com minha moleira raspada. Fato é que, me encanta este momento, algo místico visto de perto. A chuva é um dos grandes profetas, anunciando a mensagem de Deus, que nunca deixa de olhar para o seus. Minha avó sempre me impediu de ver a chuva, sempre me chamava para dentro de casa. “Não fique do lado de fora menino, é perigoso”! Acho que a chuva era a face de Deus para ela, só assim para entender o motivo de não me permitir contemplá-la. Quando chovia, para mim era tristeza, não por causa da chuva e sim por causa do medo da minha avó. Talvez seja decepção, a chuva a fazia lembrar de coisas que ela queria ocultar. Parecia que o mundo ia arrasar, ela corria tapando os espelhos e vidros com lençóis, dentro de casa não entrava um pingo de luz. Todo mundo ia para o quarto, sentávamos na cama, um olhando para outro enquanto ela não cessava de rezar. A casa estava infestada com o fedor dos ramos queimados da sexta-feira Santa. Eu estava ainda cursando as series iniciais, mas já lia muito bem. Lia o livrinho de Santa Barbara como ninguém. Minha avó dizia que a Santa livrava a gente das impetuosas tempestades e trovões. Era tantos dias assim, que o livrinho de Santa Barbara eu decorei. Às vezes, confesso, a chuva me assustava, mas não era a chuva em si, era o que com ela vinha sem ao menos pedir. Quando a chuva findava, saia para o terreiro e o cheiro de terra molhada, o cheiro de chuva meu coração limpava. Parecia que minha vida estava mais bela. Hoje quando chove vou para a janela, ainda gosto de ver a chuva. Ela me lembra de como Deus é bom, a cada chuva que vem, são tantas mortes que se vão. 

Maycon Martins

Nenhum comentário: